8 de outubro de 2015
16:15

UM CÉU DE PIPAS

Os portões do Galpão Bela Maré se abriram mais uma vez para a 4ª edição do Travessias, num sábado nublado. Lá dentro, o tempo era bom: céu azul celeste com nuvens branquinhas, balançadas pelo “vento” da obra de Eduardo Coimbra.

Foi ele próprio quem conduziu um bate-papo de dar gosto, ao cair da tarde, com estudantes, educadores e jovens. Na roda de conversa, pessoas de fora e de dentro da Maré compartilharam diferentes versões de “céus” segundo seus lugares de origem.

“Em São Paulo, há fragmentos de céus entre os prédios”… “Em Brasília, vemos o horizonte amplo”… “Na Maré, o céu é cheio de pipas, e isso pode significar muitas coisas”.

Foi um momento de troca de experiências, lembranças e de reflexão sobre o processo de criação do artista; um tempo de questionar e transpor as fronteiras.

Nessa onda de aprendizado, logo depois que a prosa terminou, Janis Clémen, artista responsável pelo Programa Educativo, propôs aos participantes uma atividade prática inspirada no trabalho de Edu.

Munidos de um giz, todos foram provocados a observar o galpão, perceber os detalhes da ocupação daquele espaço; deveriam sugerir a si próprios novas formas de se relacionar com o lugar e com as pessoas que estavam ali.

Mais tarde, Marie Carangi – autora do “corte estilo guilhotina” -, Clarissa Diniz – curadora do MAR – e Eduardo Coimbra, provocados por Jorge Barbosa – diretor do Observatório de Favelas – e por Luiza Mello, se reuniram com o público para discutir de onde vinha o artista.

Marie, que é de Recife, contou sobre sua trajetória de performances, que desaguou num trabalho inusitado, cheio de significados e histórias de bastidores. “Morei uma semana na Maré à procura de mulheres de cabelos longos que topassem cortá-los na guilhotina; não encontrei os perfis de pessoas que imaginava encontrar, e sim uma grande mistura, como evangélicas de black power”.

Para Clarissa, “a ideia de arte e de artista são construções; o artista pode vir eternamente, a cada gesto, a cada intenção. Não podemos esquecer a importância das experiências sensíveis”. Em suas falas, ela não disfarçava seu sotaque sem fronteiras, uma mistura de Recife, Brasília e Rio de Janeiro, e completou: “Não devemos enclausurar a arte em qualquer tipo de território”.

Que venha o próximo encontro!

Por Glenda Almeida / 14